Uma das memórias que possuo de quando eu era criança, é de minha mãe dizendo como ela gostava do cheiro de bosta de vaca. Um cheiro que a transportava para sua infância, em uma pequena roça entre Itapuranga e Uruana (Goiás). Outras das memórias que tenho desta mesma roça, são de ouvir estórias que falavam sobre uma pedra preciosa dentro do coração do boi, haveria que ter sorte – para encontrá-la. Nunca encontrei pedra preciosa, mas vi meu primo levar um coice no peito, criação virar alimento, espiga de milho virar boneca, o lugar onde meu bisavô morreu cortando lenha, tia luzia encantar cobras (essa minha tia foi picada duas vezes e não teve nada porque ela benzeu a cobra e se benzeu também. Ela é uma das poucas pessoas que sabem benzer cobras. É um ofício, né? Uma missão que não pode ser ensinada para qualquer pessoa porque senão esse poder enfraquece).
A paisagem dali foi se transformando até a terra que planta diminuir muito e tudo virar pasto. Existem lugares hoje que possuem mais boi do que gente. Em Goiás, a pecuária é época de usar botas, comer pamonha, ouvir os sons do casco no asfalto, cheirar a poeira vermelha, levantar com os cascos na terra e ter fartura. Boi também é churrasco, festa, encontro, e aproveitar tudo na carne, até a bola de boi em assentamentos mágicos. Em Goiás, a pecuária mata, o agro come terra, desapropria, envenena e devasta. Tudo deixa de existir. A fartura vira míngua. A terra vermelha vira sangue e mancha o pé, marcando caminho nos currais de gente, desembestados: existem formas honestas de se relacionar?
Quando eu estava nos pueblos Maya, na Guatemala, uma amiga Maya me contou sobre a milpa. Milpa é uma plantação ancestral, onde o manejo da terra faz crescerem juntos: milho, miltomate (um tomate verde pequeno, típico), chilacayote (um tipo de abóbora), fava e feijão. Com a milpa, todos esses alimentos coexistem e compartilham da terra, uma planta colaborando com o crescimento da outra e com ciência, dando todos os nutrientes que o corpo humano precisa para ser saudável. Em Goiânia, onde nasci, dizemos que quando alguma pessoa é sábia, ela tem uma ciência das coisas. Ou seja, possui um conhecimento em fazer o chá certo para a dor certa, saber consertar o pé de mesa bambo, acreditar na ciência das plantas, nas agências vegetais, animais e dos fungos no mundo; saber que para se fazer pão de queijo, precisamos de quatro copos de polvilho, três de queijo e que o contrário é para fazer biscoito de queijo. As roças Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul (Brasil), são um pouco parecidas.
A terra ali também é vermelha sangue, indígena. Certa vez, uma outra amiga Kaiowá me contou que é preciso “deixar a sujeira” na roça, pois as plantas que crescem juntas são colaboradoras umas das outras e é importante conhecer qual planta, de fato, precisa limpar e qual lua é melhor para realizar este serviço. Estas são estratégias complexas de plantio contra a monocultura – da terra, e que como indissociável à vida, estende-se aos modos de ser, sentir, pensar e agir: temos as mesmas propriedades químicas da terra. A terra guarda as histórias. Em nossas peles da paisagem, inscrições do tempo. As raízes se comunicam, falam entre si e com outros seres, de forma subversiva, em silêncio. A língua da terra guarda tecidos dos pés que pisaram nela, dos fluídos de suor, sangue e gozo que a ela umedeceram, dos ossos que a fecundaram: “os orgasmos, assim como a terra, são de quem os trabalha”.
Cada substrato é uma gramática tão ancestral que nasce e morre em espiral: “o olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória. Assim, enquanto os ancestrais de nós se lembrarem, nós ainda seremos. Nos cantos-imagens, nas imagens-canto, na dança, e ainda nas pinturas e grafias corporais são eles que ainda de nós se recordam e mantêm a permanência desejada”, em Leda Maria Martins (2019, p. 213). Enquanto as terras se lembrarem, nós ainda seremos 🌀 Nossa maior ancestral, chão das memórias de infâncias e das árvores que nasceram cada pé de povo. Na obra “Caminho” (2020, vídeo), de Sallisa Rosa caminhando em linha reta ou em zigue-zague, Sallisa pergunta: “como posso contar minha história?” ou estória – as de narrativas ficcionais, os causos e acontecimentos cotidianos que fazem a História, com “h” maiúsculo. Estórias envoltas em zonas de cinza (Cusicanqui , 2018) e opacidades (Glissant, 2021), fugindo, se fazendo e refazendo, jogando tudo fora: “quem está em constante movimento, faz o que com suas raízes? (…) aprendi a enraizar nas pessoas porque corpo é território”.
Sallisa nos lembra de um tempo onde tudo era uma grande aldeia antes de ter fronteira (Patrícia Pará Yxapy, 2017), violência, desterro, roubo. E que a terra, essa nossa maior ancestral, é matéria genética invisível de quem somos <> para onde vamos, “escrito que a natureza conta” – e amarra seu cabelo num tronco de árvore. Alienígenas são seres de fora da Terra e indígenas são quem pertencem à terra, mas aqui, tem-se alieníndias do não-lugar e imigrantes de seu próprio pertencimento. Silvia Federici (2017), nos diz que “na sociedade capitalista, o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados: o principal terreno de sua exploração e resistência, na mesma medida em que o corpo feminino foi apropriado pelo Estado e pelos homens, forçado a funcionar como um meio para a reprodução e a acumulação de trabalho” (2017, p.35) o cercamento das terras é análogo ao controle dos corpos das mulheres. Nesse fio da meada, Isabelle Stengers (2015) salienta que a expropriação funda a exploração, deste modo, a expropriação de terras e modos de ser, explora o corpo que produz trabalho e, também, imagens. O que Stengers nos cutuca é que a dimensão irreparável do fim não mudará o impacto que nós, humanos, fizemos/fazemos.
A dívida histórica com nossa maior ancestral jamais será paga, e o grande questionamento é do/a sujeito/a moderno em relação às tecnologias de fabricações de existência entre o ser e como as coisas poderiam ser: há uma distância enorme entre a nossa capacidade científica de imaginar o fim do mundo e a nossa incapacidade política de imaginar o fim do capitalismo. Já Donna Haraway, (2016), nomeia uma das possibilidades do Antropoceno como Plantationceno, em decorrência da devastação da paisagem para monocultura e mão de obra escrava – marcador da deformação da superfície terrestre pelo colonialismo. Assim, as obras “Curral” (2016, madeira, aço, alvenaria e concreto), de Talles Lopes, “Cavalo” (2021, vídeo), de Cássia Nunes e “Carne Moída” (2008, vídeo), de Raquel Nava trazem essas operações deformativas em escala: curral > cavalo > carne moída. A carne moída não volta pro curral, ao contrário, é preciso mais currais, mais forças de tração com cavalos, mais concreto e tijolos, para mais carne. Tudo desmancha, desembesta preso. Escamas de carrapicho sob a pele do cavalo cadeira, arquitetura do curral com paredes de tijolos (parece a arquitetura com piso frio daqueles condomínios de luxo), terra nômade, cercada pelos currais. A produção ou cultura de apenas um único tipo. A soja. Substituição da cobertura vegetal original, geralmente com várias espécies de plantas, bichos e fungos, por uma única cultura. As vacas.
O conhecimento dessas técnicas contra a monocultura, podem ser alternativas berrantes para as imagens do mundo, na construção desses imaginários como conhecemos. E talvez desta maneira, consigamos experienciar para saber nomear – ou não – o nosso fim do mundo (essa nossa lonjura do centro da terra). O Antropoceno, para Ailton Krenak, “tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de uma paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno” (2019, p. 58). Visualizar, como convida Ailton krenak, uma junção dessas imagens índice – as que pensamos e as que nós temos: “existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui?” (KRENAK, 2019, p. 58).
A que você pensa e a que você tem: por uma ontologia caipira e kaipora, para nossa memória larga.
Este projeto foi contemplado pelo Edital de Artes Visuais – Lei Aldir Blanc
Concurso nº 03/2021 – Secretaria de Cultura – Governo Federal