Uma das memórias que possuo de quando eu era criança, é de minha mãe dizendo como ela gostava do cheiro de bosta de vaca. Um cheiro que a transportava para sua infância, em uma pequena roça entre Itapuranga e Uruana (Goiás). Outras das memórias que tenho desta mesma roça, são de ouvir estórias que falavam sobre uma pedra preciosa dentro do coração do boi, haveria que ter sorte – para encontrá-la. Nunca encontrei pedra preciosa, mas vi meu primo levar um coice no peito, criação virar alimento, espiga de milho virar boneca, o lugar onde meu bisavô morreu cortando lenha, tia luzia encantar cobras (essa minha tia foi picada duas vezes e não teve nada porque ela benzeu a cobra e se benzeu também. Ela é uma das poucas pessoas que sabem benzer cobras. É um ofício, né? Uma missão que não pode ser ensinada para qualquer pessoa porque senão esse poder enfraquece).
Uma das memórias que possuo de quando eu era criança, é de minha mãe dizendo como ela gostava do cheiro de bosta de vaca. Um cheiro que a transportava para sua infância, em uma pequena roça entre Itapuranga e Uruana (Goiás). Outras das memórias que tenho desta mesma roça, são de ouvir estórias que falavam sobre uma pedra preciosa dentro do coração do boi, haveria que ter sorte – para encontrá-la. Nunca encontrei pedra preciosa, mas vi meu primo levar um coice no peito, criação virar alimento, espiga de milho virar boneca, o lugar onde meu bisavô morreu cortando lenha, tia luzia encantar cobras (essa minha tia foi picada duas vezes e não teve nada porque ela benzeu a cobra e se benzeu também. Ela é uma das poucas pessoas que sabem benzer cobras. É um ofício, né? Uma missão que não pode ser ensinada para qualquer pessoa porque senão esse poder enfraquece).
Cavalo
2021, Cássia Nunes
Vídeo
Caminho
2020, Sallisa Rosa
Vídeo
Curral
2016, Talles Lopes
Madeira, aço, alvenaria e concreto.
Carne Moída
2008, Raquel Nava
Vídeo
Este projeto foi contemplado pelo Edital de Artes Visuais – Lei Aldir Blanc
Concurso nº 03/2021 – Secretaria de Cultura – Governo Federal
A paisagem dali foi se transformando até a terra que planta diminuir muito e tudo virar pasto. Existem lugares hoje que possuem mais boi do que gente. Em Goiás, a pecuária é época de usar botas, comer pamonha, ouvir os sons do casco no asfalto, cheirar a poeira vermelha, levantar com os cascos na terra e ter fartura. Boi também é churrasco, festa, encontro, e aproveitar tudo na carne, até a bola de boi em assentamentos mágicos. Em Goiás, a pecuária mata, o agro come terra, desapropria, envenena e devasta. Tudo deixa de existir. A fartura vira míngua. A terra vermelha vira sangue e mancha o pé, marcando caminho nos currais de gente, desembestados: existem formas honestas de se relacionar?
Quando eu estava nos pueblos Maya, na Guatemala, uma amiga Maya me contou sobre a milpa. Milpa é uma plantação ancestral, onde o manejo da terra faz crescerem juntos: milho, miltomate (um tomate verde pequeno, típico), chilacayote (um tipo de abóbora), fava e feijão. Com a milpa, todos esses alimentos coexistem e compartilham da terra, uma planta colaborando com o crescimento da outra e com ciência, dando todos os nutrientes que o corpo humano precisa para ser saudável. Em Goiânia, onde nasci, dizemos que quando alguma pessoa é sábia, ela tem uma ciência das coisas. Ou seja, possui um conhecimento em fazer o chá certo para a dor certa, saber consertar o pé de mesa bambo, acreditar na ciência das plantas, nas agências vegetais, animais e dos fungos no mundo; saber que para se fazer pão de queijo, precisamos de quatro copos de polvilho, três de queijo e que o contrário é para fazer biscoito de queijo. As roças Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul (Brasil), são um pouco parecidas.
A terra ali também é vermelha sangue, indígena. Certa vez, uma outra amiga Kaiowá me contou que é preciso “deixar a sujeira” na roça, pois as plantas que crescem juntas são colaboradoras umas das outras e é importante conhecer qual planta, de fato, precisa limpar e qual lua é melhor para realizar este serviço. Estas são estratégias complexas de plantio contra a monocultura – da terra, e que como indissociável à vida, estende-se aos modos de ser, sentir, pensar e agir: temos as mesmas propriedades químicas da terra. A terra guarda as histórias. Em nossas peles da paisagem, inscrições do tempo. As raízes se comunicam, falam entre si e com outros seres, de forma subversiva, em silêncio. A língua da terra guarda tecidos dos pés que pisaram nela, dos fluídos de suor, sangue e gozo que a ela umedeceram, dos ossos que a fecundaram: “os orgasmos, assim como a terra, são de quem os trabalha”.
Cada substrato é uma gramática tão ancestral que nasce e morre em espiral: “o olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória. Assim, enquanto os ancestrais de nós se lembrarem, nós ainda seremos. Nos cantos-imagens, nas imagens-canto, na dança, e ainda nas pinturas e grafias corporais são eles que ainda de nós se recordam e mantêm a permanência desejada”, em Leda Maria Martins (2019, p. 213). Enquanto as terras se lembrarem, nós ainda seremos 🌀 Nossa maior ancestral, chão das memórias de infâncias e das árvores que nasceram cada pé de povo. Na obra “Caminho” (2020, vídeo), de Sallisa Rosa caminhando em linha reta ou em zigue-zague, Sallisa pergunta: “como posso contar minha história?” ou estória – as de narrativas ficcionais, os causos e acontecimentos cotidianos que fazem a História, com “h” maiúsculo. Estórias envoltas em zonas de cinza (Cusicanqui , 2018) e opacidades (Glissant, 2021), fugindo, se fazendo e refazendo, jogando tudo fora: “quem está em constante movimento, faz o que com suas raízes? (…) aprendi a enraizar nas pessoas porque corpo é território”.
Sallisa nos lembra de um tempo onde tudo era uma grande aldeia antes de ter fronteira (Patrícia Pará Yxapy, 2017), violência, desterro, roubo. E que a terra, essa nossa maior ancestral, é matéria genética invisível de quem somos <> para onde vamos, “escrito que a natureza conta” – e amarra seu cabelo num tronco de árvore. Alienígenas são seres de fora da Terra e indígenas são quem pertencem à terra, mas aqui, tem-se alieníndias do não-lugar e imigrantes de seu próprio pertencimento. Silvia Federici (2017), nos diz que “na sociedade capitalista, o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados: o principal terreno de sua exploração e resistência, na mesma medida em que o corpo feminino foi apropriado pelo Estado e pelos homens, forçado a funcionar como um meio para a reprodução e a acumulação de trabalho” (2017, p.35) o cercamento das terras é análogo ao controle dos corpos das mulheres. Nesse fio da meada, Isabelle Stengers (2015) salienta que a expropriação funda a exploração, deste modo, a expropriação de terras e modos de ser, explora o corpo que produz trabalho e, também, imagens. O que Stengers nos cutuca é que a dimensão irreparável do fim não mudará o impacto que nós, humanos, fizemos/fazemos.
A dívida histórica com nossa maior ancestral jamais será paga, e o grande questionamento é do/a sujeito/a moderno em relação às tecnologias de fabricações de existência entre o ser e como as coisas poderiam ser: há uma distância enorme entre a nossa capacidade científica de imaginar o fim do mundo e a nossa incapacidade política de imaginar o fim do capitalismo. Já Donna Haraway, (2016), nomeia uma das possibilidades do Antropoceno como Plantationceno, em decorrência da devastação da paisagem para monocultura e mão de obra escrava – marcador da deformação da superfície terrestre pelo colonialismo. Assim, as obras “Curral” (2016, madeira, aço, alvenaria e concreto), de Talles Lopes, “Cavalo” (2021, vídeo), de Cássia Nunes e “Carne Moída” (2008, vídeo), de Raquel Nava trazem essas operações deformativas em escala: curral > cavalo > carne moída. A carne moída não volta pro curral, ao contrário, é preciso mais currais, mais forças de tração com cavalos, mais concreto e tijolos, para mais carne. Tudo desmancha, desembesta preso. Escamas de carrapicho sob a pele do cavalo cadeira, arquitetura do curral com paredes de tijolos (parece a arquitetura com piso frio daqueles condomínios de luxo), terra nômade, cercada pelos currais. A produção ou cultura de apenas um único tipo. A soja. Substituição da cobertura vegetal original, geralmente com várias espécies de plantas, bichos e fungos, por uma única cultura. As vacas.
O conhecimento dessas técnicas contra a monocultura, podem ser alternativas berrantes para as imagens do mundo, na construção desses imaginários como conhecemos. E talvez desta maneira, consigamos experienciar para saber nomear – ou não – o nosso fim do mundo (essa nossa lonjura do centro da terra). O Antropoceno, para Ailton Krenak, “tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de uma paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno” (2019, p. 58). Visualizar, como convida Ailton krenak, uma junção dessas imagens índice – as que pensamos e as que nós temos: “existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui?” (KRENAK, 2019, p. 58).
A que você pensa e a que você tem: por uma ontologia caipira e kaipora, para nossa memória larga.
Uma das memórias que possuo de quando eu era criança, é de minha mãe dizendo como ela gostava do cheiro de bosta de vaca. Um cheiro que a transportava para sua infância, em uma pequena roça entre Itapuranga e Uruana (Goiás). Outras das memórias que tenho desta mesma roça, são de ouvir estórias que falavam sobre uma pedra preciosa dentro do coração do boi, haveria que ter sorte – para encontrá-la. Nunca encontrei pedra preciosa, mas vi meu primo levar um coice no peito, criação virar alimento, espiga de milho virar boneca, o lugar onde meu bisavô morreu cortando lenha, tia luzia encantar cobras (essa minha tia foi picada duas vezes e não teve nada porque ela benzeu a cobra e se benzeu também. Ela é uma das poucas pessoas que sabem benzer cobras. É um ofício, né? Uma missão que não pode ser ensinada para qualquer pessoa porque senão esse poder enfraquece).
A paisagem dali foi se transformando até a terra que planta diminuir muito e tudo virar pasto. Existem lugares hoje que possuem mais boi do que gente. Em Goiás, a pecuária é época de usar botas, comer pamonha, ouvir os sons do casco no asfalto, cheirar a poeira vermelha, levantar com os cascos na terra e ter fartura. Boi também é churrasco, festa, encontro, e aproveitar tudo na carne, até a bola de boi em assentamentos mágicos. Em Goiás, a pecuária mata, o agro come terra, desapropria, envenena e devasta. Tudo deixa de existir. A fartura vira míngua. A terra vermelha vira sangue e mancha o pé, marcando caminho nos currais de gente, desembestados: existem formas honestas de se relacionar?
Quando eu estava nos pueblos Maya, na Guatemala, uma amiga Maya me contou sobre a milpa. Milpa é uma plantação ancestral, onde o manejo da terra faz crescerem juntos: milho, miltomate (um tomate verde pequeno, típico), chilacayote (um tipo de abóbora), fava e feijão. Com a milpa, todos esses alimentos coexistem e compartilham da terra, uma planta colaborando com o crescimento da outra e com ciência, dando todos os nutrientes que o corpo humano precisa para ser saudável. Em Goiânia, onde nasci, dizemos que quando alguma pessoa é sábia, ela tem uma ciência das coisas. Ou seja, possui um conhecimento em fazer o chá certo para a dor certa, saber consertar o pé de mesa bambo, acreditar na ciência das plantas, nas agências vegetais, animais e dos fungos no mundo; saber que para se fazer pão de queijo, precisamos de quatro copos de polvilho, três de queijo e que o contrário é para fazer biscoito de queijo. As roças Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul (Brasil), são um pouco parecidas.
A terra ali também é vermelha sangue, indígena. Certa vez, uma outra amiga Kaiowá me contou que é preciso “deixar a sujeira” na roça, pois as plantas que crescem juntas são colaboradoras umas das outras e é importante conhecer qual planta, de fato, precisa limpar e qual lua é melhor para realizar este serviço. Estas são estratégias complexas de plantio contra a monocultura – da terra, e que como indissociável à vida, estende-se aos modos de ser, sentir, pensar e agir: temos as mesmas propriedades químicas da terra. A terra guarda as histórias. Em nossas peles da paisagem, inscrições do tempo. As raízes se comunicam, falam entre si e com outros seres, de forma subversiva, em silêncio. A língua da terra guarda tecidos dos pés que pisaram nela, dos fluídos de suor, sangue e gozo que a ela umedeceram, dos ossos que a fecundaram: “os orgasmos, assim como a terra, são de quem os trabalha”.
Cada substrato é uma gramática tão ancestral que nasce e morre em espiral: “o olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória. Assim, enquanto os ancestrais de nós se lembrarem, nós ainda seremos. Nos cantos-imagens, nas imagens-canto, na dança, e ainda nas pinturas e grafias corporais são eles que ainda de nós se recordam e mantêm a permanência desejada”, em Leda Maria Martins (2019, p. 213). Enquanto as terras se lembrarem, nós ainda seremos 🌀 Nossa maior ancestral, chão das memórias de infâncias e das árvores que nasceram cada pé de povo. Na obra “Caminho” (2020, vídeo), de Sallisa Rosa caminhando em linha reta ou em zigue-zague, Sallisa pergunta: “como posso contar minha história?” ou estória – as de narrativas ficcionais, os causos e acontecimentos cotidianos que fazem a História, com “h” maiúsculo. Estórias envoltas em zonas de cinza (Cusicanqui , 2018) e opacidades (Glissant, 2021), fugindo, se fazendo e refazendo, jogando tudo fora: “quem está em constante movimento, faz o que com suas raízes? (…) aprendi a enraizar nas pessoas porque corpo é território”.
Sallisa nos lembra de um tempo onde tudo era uma grande aldeia antes de ter fronteira (Patrícia Pará Yxapy, 2017), violência, desterro, roubo. E que a terra, essa nossa maior ancestral, é matéria genética invisível de quem somos <> para onde vamos, “escrito que a natureza conta” – e amarra seu cabelo num tronco de árvore. Alienígenas são seres de fora da Terra e indígenas são quem pertencem à terra, mas aqui, tem-se alieníndias do não-lugar e imigrantes de seu próprio pertencimento. Silvia Federici (2017), nos diz que “na sociedade capitalista, o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados: o principal terreno de sua exploração e resistência, na mesma medida em que o corpo feminino foi apropriado pelo Estado e pelos homens, forçado a funcionar como um meio para a reprodução e a acumulação de trabalho” (2017, p.35) o cercamento das terras é análogo ao controle dos corpos das mulheres. Nesse fio da meada, Isabelle Stengers (2015) salienta que a expropriação funda a exploração, deste modo, a expropriação de terras e modos de ser, explora o corpo que produz trabalho e, também, imagens. O que Stengers nos cutuca é que a dimensão irreparável do fim não mudará o impacto que nós, humanos, fizemos/fazemos.
A dívida histórica com nossa maior ancestral jamais será paga, e o grande questionamento é do/a sujeito/a moderno em relação às tecnologias de fabricações de existência entre o ser e como as coisas poderiam ser: há uma distância enorme entre a nossa capacidade científica de imaginar o fim do mundo e a nossa incapacidade política de imaginar o fim do capitalismo. Já Donna Haraway, (2016), nomeia uma das possibilidades do Antropoceno como Plantationceno, em decorrência da devastação da paisagem para monocultura e mão de obra escrava – marcador da deformação da superfície terrestre pelo colonialismo. Assim, as obras “Curral” (2016, madeira, aço, alvenaria e concreto), de Talles Lopes, “Cavalo” (2021, vídeo), de Cássia Nunes e “Carne Moída” (2008, vídeo), de Raquel Nava trazem essas operações deformativas em escala: curral > cavalo > carne moída. A carne moída não volta pro curral, ao contrário, é preciso mais currais, mais forças de tração com cavalos, mais concreto e tijolos, para mais carne. Tudo desmancha, desembesta preso. Escamas de carrapicho sob a pele do cavalo cadeira, arquitetura do curral com paredes de tijolos (parece a arquitetura com piso frio daqueles condomínios de luxo), terra nômade, cercada pelos currais. A produção ou cultura de apenas um único tipo. A soja. Substituição da cobertura vegetal original, geralmente com várias espécies de plantas, bichos e fungos, por uma única cultura. As vacas.
O conhecimento dessas técnicas contra a monocultura, podem ser alternativas berrantes para as imagens do mundo, na construção desses imaginários como conhecemos. E talvez desta maneira, consigamos experienciar para saber nomear – ou não – o nosso fim do mundo (essa nossa lonjura do centro da terra). O Antropoceno, para Ailton Krenak, “tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de uma paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno” (2019, p. 58). Visualizar, como convida Ailton krenak, uma junção dessas imagens índice – as que pensamos e as que nós temos: “existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui?” (KRENAK, 2019, p. 58).
A que você pensa e a que você tem: por uma ontologia caipira e kaipora, para nossa memória larga.